Lojas Renner capacita e contrata 20 refugiadas que viviam em abrigos de Boa Vista

Atualizado: Mar 24

Participantes foram interiorizadas junto de suas famílias para reconstruir a vida em 13 cidades brasileiras


Por: Yana Lima

Assista depoimentos das refugiadas no documentário gravado pelo Instituto Lojas Renner sobre a turma de Boa Vista, do projeto Empoderando Refugiadas


Outubro, 2020


Desde 2016, o Instituto Lojas Renner, braço social da Lojas Renner, desenvolve um projeto de capacitação para refugiadas, visando contribuir para a inserção social, o empoderamento das mulheres e sua colocação no mercado de trabalho. Mais de 300 pessoas em situação de refúgio já receberam a formação e 75 foram contratadas para atuar em lojas da Renner, Camicado e Youcom, que integram o grupo empresarial. O mais recente caso de sucesso realizado pelo instituto, em parceria com o Empoderando Refugiadas – iniciativa da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Rede Brasil do Pacto Global e ONU Mulheres – foi a turma piloto formada em Boa Vista em 2019. O projeto ofereceu qualificação profissional certificada para 20 refugiadas venezuelanas que viviam em abrigos de Boa Vista (Roraima). A varejista contratou 100% das mulheres formadas e apoiou a interiorização das novas colaboradoras e suas famílias para as cinco regiões brasileiras.  


Para realizar a capacitação com refugiadas em Boa Vista, o Instituto Lojas Renner contou com o apoio metodológico do Instituto Aliança, referência em formação socioemocional com populações em situação de vulnerabilidade. A equipe da organização se deslocou para Roraima em outubro de 2019 para iniciar a operação do projeto. Em parceria com a Associação Voluntários para o Serviço Internacional (AVSI), ACNUR e com o suporte da área de Gente & Desenvolvimento da Lojas Renner, fizeram a seleção das 20 refugiadas e mais cinco brasileiras, com a finalidade de promover a integração cultural e a coexistência pacífica. Além das diferentes nacionalidades, a turma contou com mulheres LGBTQIA+, mães solteiras e de diversos perfis profissionais. 


Ficamos honrados em proporcionar ferramentas de desenvolvimento para que estas mulheres tenham cada vez mais oportunidades na nossa sociedade. E é uma alegria ainda maior quando temos a possibilidade de abrir as portas com uma vaga de emprego dentro da companhia”, destaca Eduardo Ferlauto, diretor executivo do Instituto Lojas Renner.


A capacitação ocorreu durante quatro semanas na Casa da Mulher Brasileira de Boa Vista. Durante o período, as participantes tiveram a oportunidade de aprender sobre moda, varejo e mercado de trabalho. Mas, segundo Ilma Oliveira, coordenadora da área de Direitos Humanos do Instituto Aliança, o ponto forte da metodologia foi o desenvolvimento de competências socioemocionais, autoestima e empoderamento feminino das alunas que se encontravam em situação de vulnerabilidade.


“Tivemos o desafio de identificar quais conteúdos não poderíamos deixar de fora para a preparação das refugiadas para a entrada no mercado de trabalho. Em nossa metodologia o aluno não é apenas ouvinte. Todo itinerário é construído com encadeamento dos conteúdos e toda a proposta pedagógica precisa responder: “que mundo eu quero?” e “que pessoa eu quero ser para esse mundo?”. O trabalho foi pensado com base nisso e nos nossos princípios: respeito, garantia de direitos e empoderamento feminino”, explica Ilma. 


Enquanto a seleção e a formação aconteciam, a equipe do Instituto Lojas Renner se mobilizava para levantar vagas em todo território nacional. Em novembro de 2019, a varejista comunicou sobre a disponibilidade de contratar todas as formandas e, em parceria com a Operação Acolhida, mobilizou o processo de interiorização laboral das mulheres e suas famílias. Mais de 70 pessoas foram interiorizadas nesta edição, conduzidas por mulheres que lideraram a mudança de suas famílias por meio do emprego.


Verónica, mulher transexual e integrante da primeira turma do projeto em Boa Vista, foi interiorizada para Santo Ângelo, município do Rio Grande do Sul. Ela conta que, depois de viver na rua em Boa Vista, estava desanimada e não se sentia motivada a começar o curso, mas o esposo insistiu e a inscreveu na seleção. Foi a primeira contratação de todas que viriam na sequência.


“Após a entrevista com a gerente da loja, fiquei emocionada porque estava tudo dando certo. Esse projeto mudou minha vida por completo. Sou trans e hoje posso dizer: me sinto uma mulher empoderada”, conta a venezuelana.


Verónica (dir) e Viviane Aguiar, educadora do Instituto Aliança. Foto: Benjamin Mast

Desenvolvimento de equipes e acompanhamento pós-contratação 


Estruturar um projeto que promova a inclusão de refugiadas deve considerar a preparação dos colaboradores e equipes que irão receber a nova funcionária, bem como o acompanhamento da integrante para garantir a adaptação e compreensão dos processos de trabalho no novo país de residência. Olhar para a pós-contratação é tão importante e necessário quanto a preparação das refugiadas para a conquista de um emprego formal. Cientes da necessidade, o Instituto Lojas Renner preparou gerentes de loja e equipes para receber estas pessoas.


“A iniciativa é muito bem recebida pelos colaboradores, que reconhecem a relevância do programa. A Renner valoriza a diversidade e as equipes recebem muito bem os colegas de outros países e culturas, contribuindo fortemente para a sua integração ao ambiente de trabalho. No caso da turma de Boa Vista, as refugiadas enviaram vídeos curtos aos gerentes e times, se apresentando e contando sobra suas expectativas. A resposta foi bastante positiva. Os times se engajaram e responderam com um vídeo de boas-vindas para cada uma delas e prepararam uma recepção calorosa para a integração.”, conta Eduardo Ferlauto.


O projeto Empoderando Refugiadas tem sido referência para outras empresas brasileiras que têm o intuito de trabalhar a inclusão de refugiados em suas práticas e políticas de diversidade. Segundo o guia publicado pelo Empoderando Refugiadas, os benefícios relatados por empresas que promovem atividades para refugiados são múltiplos: melhoria da imagem corporativa, maior engajamento de funcionários, desenvolvimento de habilidades de liderança para os funcionários que atuam como mentores de refugiados, dentre outros. 


“A gente se transforma quando se trabalha com essa pauta. Não conseguimos mais olhar o mundo de outra forma. É importante para a gente se entender e compreender as relações que desenvolvemos com as pessoas. Quando o Instituto Lojas Renner chegou com essa ideia no Instituto Aliança, unimos uma vontade antiga nossa e trouxemos para a mesa de trabalho essa pauta planetária tão importante”, ressalta Márcio Lupi, coordenador de programas na área de Direitos Humanos do Instituto Aliança.

Linha do tempo do trabalho realizado pela Lojas Renner na inclusão de refugiados

2015 – Início da parceria com o projeto Empoderando Refugiadas.

2016 – O projeto de inclusão de refugiados começou com a oferta de um curso de costura em parceria com o Centro de Educação São José. O foco era desenvolver mulheres, já que a igualdade de gênero faz parte da missão do Instituto Lojas Renner. Foram formadas três turmas e a empresa sensibilizou sua cadeia de fornecedores para contratação dos alunos. 

2017 – Foram formadas duas turmas no curso de Costura e uma turma focada em Atendimento e Vendas para Varejo – das 14 pessoas que concluíram este último curso, a Lojas Renner contratou 12.

2018 – Com base no sucesso da turma de Atendimento e Vendas realizada no ano anterior, neste ano a proporção se inverteu: foram três turmas desta especialidade, em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, e uma turma de Costura. 

2019 – Para fomentar a contratação das alunas formadas nos cursos, foi decidido inverter a lógica do processo. A equipe de recursos humanos da Lojas Renner participou da seleção das refugiadas em Boa Vista para o curso, já considerando os critérios de seleção da empresa. Enquanto isso, a equipe do Instituto Lojas Renner mapeou vagas de trabalho nas lojas de todo o Brasil. Desta forma, foi possível alcançar a meta de 100% de contratação das mulheres capacitadas.