Recrutamento Fácil cria banco de currículos para auxiliar a contratação de refugiados em Curitiba

Atualizado: 3 de Set de 2019

Agência de recrutamento e seleção lançou o projeto Um Por Cento, em parceria com instituições locais, para conectar refugiados e empresas



César Malave Bolivar trabalhando na cozinha do restaurante Jacobina

O convite daquela noite era um tanto quanto inusitado: Beatrice Takashina, proprietária do restaurante Jacobina, em Curitiba, avisou ao esposo Diego Godoy, sócio-fundador da agência de empregos Recrutamento Fácil, que iriam jantar na casa da família Tokmaji, refugiados sírios que vivem no Brasil desde 2013. O que era para ser uma simples refeição se tornou uma experiência cultural com comidas típicas e músicas árabes ao vivo. Foi a partir da história de vida dessa família que Diego se engajou à causa do refúgio. No começo de 2019, o empresário lançou o projeto Um Por Cento, que presta serviço de elaboração e tradução gratuita de currículos para conectar migrantes a possíveis oportunidades de trabalho.


O número de refugiados no Paraná cresceu muito com o processo de interiorização da Operação Acolhida. Só nos primeiros cinco meses de 2019, o Centro de Informação para Migrantes, Refugiados e Apátridas, órgão vinculado à Secretaria da Justiça, Família e Trabalho do Governo Estadual, registrou mais de 1,2 mil atendimentos para mais de 30 nacionalidades. O aumento da oferta de mão de obra também foi sentido no setor privado, inclusive pela equipe da Recrutamento Fácil.


Foi esse impacto que fez com que a empresa de Diego começasse de maneira reativa. No atendimento a imigrantes e refugiados, perceberam que a maioria deles tinha profissões e formações nos países de origem e não podiam atuar no Brasil sem revalidar diplomas - trâmite que pode levar anos. Então, o proprietário decidiu dedicar algumas horas por semana para atender essas pessoas e "entrevistá-las" por telefone, a fim de entender o que faziam nos seus países de origem para tentar redirecionar da maneira mais rápida possível para que encontrassem um trabalho no Brasil.


“Atendi uma pessoa formada em Direito e que exercia a advocacia na Venezuela. Ela não consegue atuar como advogado no Brasil sem realizar a revalidação do diploma e, posteriormente, fazer o exame da OAB, mas precisava de emprego imediatamente. Identificamos que esta pessoa tinha um bom conhecimento na área de tecnologia de informação e indicamos para trabalhar como help desk e suporte em uma empresa. Isso fez com que conseguisse trabalho muito mais rapidamente”, explica Diego.


O projeto começou a ser divulgado em canais de TV local e jornais da cidade e a demanda cresceu. Para dar conta de atender a todos, Diego buscou apoio da Cáritas, da Associação Nacional Por Uma Economia de Comunhão (Anpecom) e do Movimento dos Focolares, que já atuavam com refugiados em Curitiba. As instituições fizeram a ponte e conectaram a iniciativa de Diego aos candidatos que estavam em busca de emprego. Marluce Bely é servidora pública federal aposentada pela Justiça Militar da União, voluntária no Movimento dos Focolares de Curitiba e se dedica à causa desde novembro de 2018, quando ajudou a organizar um evento beneficente na Paróquia Santuário Nossa Senhora da Salette.


“Em função do evento, acabei conhecendo a realidade e prestando apoio aos refugiados. Vou atrás de moradia, ajudo a mobiliar e equipar as casas, suprir com os alimentos e despesas iniciais. Nossa proposta é acolher, promover, integrar e chegar a celebrar com eles suas vitórias. As ações de promover e integrar se dão pela inserção no mundo do trabalho. Muitos têm o currículo em espanhol e em formatos não adequados à realidade empresarial do Brasil. Por isso, essa é uma das atividades que eu e mais um grupo de voluntários, estamos priorizando” detalha Marluce.


A soma de esforços da iniciativa Um Por Cento


Definido o nicho de atuação do projeto e com o suporte de parceiros, o passo seguinte era angariar voluntários que pudessem colaborar com a tradução e elaboração dos currículos. Diego contou com indicações de Marluce e, atualmente, recebe ajuda de 10 voluntários. A equipe criou manuais de instruções para que eles pudessem fazer o trabalho de elaboração de currículos adaptados para refugiados. Os documentos evidenciam a formação do candidato, mas valorizam outras competências e aptidões que podem facilitar a inserção no mercado.


“Percebi que não adiantava a gente só qualificar esses currículos e não educar as empresas para receberem essas pessoas. Temos que explicar às corporações quem é a pessoa refugiada. Atualmente, devemos ter umas 50 a 60 empresas usando nosso banco de currículos. Tentamos mensurar o número de pessoas contratadas a partir da nossa seleção, mas não conseguimos fazer o controle ainda”, ressalta Diego.


Impactos bilaterais


César Malave Bolivar tem 22 anos e deixou a Venezuela há quase um ano. Depois de sete meses em Roraima, foi para Curitiba com as irmãs e sobrinhos, pelo programa de interiorização. De acordo com dados do Governo Federal, o Paraná é o quarto estado que mais recebeu venezuelanos na interiorização – 706 pessoas até maio de 2019. Por meio de um grupo de WhatsApp, ele soube do trabalho desenvolvido por Marluce e entrou em contato. Hoje atua na cozinha do Restaurante Jacobina, no bairro Juvevê, região central da capital paranaense.


“O dinheiro que ganhava mensalmente na Venezuela mal dava para o transporte. Era difícil manter o corpo alimentado. Aqui estou muito feliz. As pessoas em Curitiba são amáveis e carinhosas, não têm medo da gente. Tenho condições de comprar comida, pagar o aluguel, mandar dinheiro para a família. Muitas pessoas não têm esse privilégio de conseguir um trabalho. Meu plano é poder ajudar minha mãe que está em Venezuela e meu irmão. Quero montar um negócio aqui no Brasil, tipo barbearia ou um restaurante e quando as coisas se acomodarem por lá, pretendo voltar”, planeja César.


Todo o processo de contratação de um refugiado por meio do banco de currículos Um Por Cento é feito de forma gratuita, tanto para o candidato quanto para a empresa, diferentemente de uma seleção comum. O nome do projeto surgiu a partir da crença de que se cada pessoa puder doar ao menos um por cento do seu tempo ao outro, é possível fazer a diferença na vida de muitos. Diego jamais poderia imaginar que o jantar despretensioso na casa da família de refugiados sírios pudesse fazê-lo resgatar o histórico de sua família que descende de migrantes e resultar em um trabalho como este.


“Coisas mínimas, que para nós são normais, para os refugiados não são. Ter acesso a saúde, ter onde dormir são benefícios sociais que nós temos e eles não. Muitos desconhecem nosso sistema de assistência social, por exemplo. São questões básicas que precisamos ajudar a esclarecer. Eu tenho tudo isso. O que posso fazer para que outras pessoas tenham também?”, reflete Diego.

INICIATIVA

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